Pelo picadeiro mais carioca do Rio, o Circo Crescer e Viver, já passaram centenas de artistas. Muitos através dos programas e projetos da Escola como o Programa de Circo Social e do Programa de Formação do Artista de Circo (PROFAC), outros em apresentações como as do Festival Internacional de Circo do Rio de Janeiro, do projeto de Residência, entre outras. Além de ter contribuído para a formação de vários artistas, como segue fazendo, a lona permanente da Praça Onze também foi o berço de uma das companhias atuais mais promissoras da atual cena circense, o Circo no Ato. O grupo, que recentemente fez uma residência em Barcelona e no momento finaliza sua participação na Residência de Modelagem de Espetáculo do Circo CRESCER E VIVER e entre ensaios e preparações do novo trabalho, além das demandas administrativas da companhia, e a gravação do vídeo release aqui no Circo Crescer e Viver na última sexta-feira (4/03/16), fez uma pausa para conversar com exclusividade com o site do Crescer e Viver. Em breve, postaremos aqui no site o vídeo! Confira: 

Circo Crescer e Viver: Há quanto tempo o grupo existe? Quais são os integrantes atuais e habilidades de cada um?

Circo no Ato (Luis Martins):  O grupo se reuniu para a construção do espetáculo “Um dia de João”, em 2012, porém só nos estruturamos como companhia formalizada em 2013. O Circo no ato possui 12 integrantes: Brian Amorim – monociclista, palhaço e acrobata; Camila Krishna – acrobata volante, que está começando a estudar aéreos; Carol Costa – acrobata, malabarista e atriz; Cassia Cristina – contorcionista, acrobata, paradista e atriz; Danilo Cesar Alexandre – contorcionista, acrobata aéreo e bailarino; Gilmar Oliveira – acrobata, perna de pau, palhaço e capoeirista; Luis Fernando Martins – acrobata e malabarista; Natássia Vello – acrobata, atriz e diretora de teatro e circo; Mário Flávio – acrobata, malabarista e paradista; Rafael Garrido – acrobata, trapezista, paradista e bailarino; Rodrigo Ceribelli – acrobata, malabarista, paradista e bailarino e Pedro Serejo – palhaço, malabarista, equilibrista e ator.

Circo Crescer e Viver: Contem para o público como se formou o grupo. O que determinou a escolha das pessoas e a formação do grupo? Como se deu esse processo?

Circo no Ato (Natássia Vello): O Circo no Ato não foi planejado, não idealizamos o grupo previamente e não houve escolha de ninguém, pelo menos na primeira configuração. Éramos todos de uma mesma turma do PROFAC. Fazia parte do projeto pedagógico da escola, naquela época, a montagem de um espetáculo depois de um ano de formação, foi aí que surgiu “Um dia de João”, nosso primeiro espetáculo. Criamos “Um dia de João” como turma, não como grupo, nem sonhávamos em ser um grupo naquela época, mas sem dúvidas o formato em que criamos foi muito favorável para depois termos nos organizado como tal, pois tivemos muita autonomia durante todo o processo de construção do espetáculo.

Fizemos praticamente tudo entre nós mesmos e amigos de outras turmas do PROFAC (direção, produção, cenário, figurino, etc).

O diretor Roberto Magro em ação com o Circo no Ato na Residência do Circo Crescer e Viver. Foto: Rodrigo Menezes

O diretor Roberto Magro em ação com o Circo no Ato na Residência do Circo Crescer e Viver. Foto: Rodrigo Menezes

 

Crescer e Viver: Então, a partir desse processo, o grupo se formou?

Circo no Ato (Natássia Vello): Na verdade, o Circo no Ato se formou só oito meses depois desse processo. E como se deu a escolha? Pelo desejo de cada um. Algumas pessoas seguiram outros caminhos, mudaram de cidade, de profissão, ou simplesmente queriam viver outras coisas. O Circo no Ato se formou pelos que escolheram ficar para construir esse projeto/sonho coletivo. Cada um escolheu o seu caminho, e alguns caminhos se convergiram na formação do grupo. Depois desse processo inicial a entrada de novos integrantes foi um pouco diferente, aí sim começou a ser escolha, mas mesmo assim, sempre foi uma escolha mútua. Chamávamos alguém, por afinidade artística e pessoal, para um trabalho específico, e se a pessoa comprava a ideia, o sonho, e principalmente, botava a mão na massa para trabalhar, já era englobado. Hoje, com quase três anos de grupo, depois de algumas entradas e saídas, somos 12 artistas e muitos parceiros.

Circo Crescer e Viver: Como se deu a institucionalização do grupo? Em que momento sentiram que seria necessário se formalizar?

Circo no Ato (Natássia Vello): A institucionalização começou com uma pilha do Junior (Perim) e o seu incentivo à formalização da cultura, mas havia, claro, muito receio. Mal éramos um grupo ainda e já estávamos falando em nos institucionalizar, assinar papéis juntos, construir toda uma vida. Mas, não sei se por uma crença inocente, uma intuição ou simplesmente um grande desejo de que o Circo no Ato desse certo, apesar do receio, tudo aconteceu muito rápido, com menos de um ano de grupo já estávamos abrindo a empresa.

Circo Crescer e Viver: E de que forma se institucionalizar foi importante para o grupo?

Circo no Ato (Natássia Vello): Tudo começou com um projeto de circo social que estávamos querendo realizar com parceria com a Firjan, para isso precisaríamos de um CNPJ nosso, foi o que acelerou todo o processo. No final das contas, não aconteceu a parceria e acabamos interrompendo o projeto de circo social, mas a empresa ficou. O que foi ótimo, pois realizamos muitos projetos que não teríamos realizado, ou teríamos mais dificuldade em realizar sem nosso próprio CNPJ. Havia uma sensação no grupo de autonomia, de estarmos nos estruturando, e isso sem dúvida nenhuma foi importante.

Hoje a nossa relação com a institucionalidade é diferente, desconfiamos dela na mesma medida que precisamos. Ao procurarmos suporte e ajuda dos mais experientes, temos ouvido bastante a frase, “Bem-vindos à cultura do Rio de Janeiro”, e ela é sempre cheia de sentido. A frase parece dizer ao mesmo tempo, “Fico feliz pelo crescimento de vocês”, “Aprenda que a coerência é apenas um ponto de vista”, ou “É exatamente isso, vocês vão aprendendo com o tempo”. É claro que a nossa formalização foi necessária e importante, e, sobretudo, nos abriu muitas portas, mas, hoje entendemos também que é utópica a segurança por estarmos dentro da parcela da cultura formalizada, fazendo tudo certo, conforme a lei. Há muito a entender nesse processo burocrático da cultura, com o qual estamos ainda aprendendo a lidar.

O diretor Roberto Magro em ação com o Circo no Ato na Residência do Circo Crescer e Viver. Foto: Rodrigo Menezes

O diretor Roberto Magro em ação com o Circo no Ato na Residência do Circo Crescer e Viver. Foto: Rodrigo Menezes

Circo Crescer e Viver:  Qual a importância do Crescer e Viver para vocês?

Circo no Ato (Luis Martins): O Crescer e Viver teve uma importância enorme no surgimento do Circo no Ato, o grupo se estruturou durante o Programa de Formação do Artista de Circo onde iniciamos nossa capacitação técnica. Durante a nossa formação desenvolvemos o nosso primeiro espetáculo dentro de um processo pedagógico que concluía o nosso primeiro ano de curso (este veio a ser nosso primeiro produto).

Desde que entramos no Crescer e Viver sempre tivemos um contato muito próximo com todos da instituição, e tivemos muita ajuda e incentivo por parte dessas pessoas. Identificando nosso desejo de se organizar coletivamente a instituição nos forneceu todo o suporte e apoio para darmos estes primeiros passos, inclusive incentivando a formalização do grupo, nos oferecendo as primeiras possibilidades de circulação através de contratação para o projeto Circo Volante, e nos indicando para realizar nossos primeiros trabalhos, que nos ajudaram a começar a estabelecer uma rede de contatos, incentivando a sustentabilidade do grupo.

Circo Crescer e Viver:  Como vocês se dividem para gerir as responsabilidades do grupo?

Circo no Ato (Rodrigo Ceribelli): Sempre que podemos, tentamos dividir as funções por igual com todos. Por exemplo: para responder esta entrevista sorteamos duas perguntas para cada um, rs.

Com o tempo fomos descobrindo as potencialidades de cada um em diferentes áreas, então partimos dessas potencialidades também nas divisões. O Ceribelli tem uma experiência em Produção Audiovisual, então tudo que é de mídias digitais passa por ele. A Carol é formada em Economia, então nossas funções financeiras sempre passam por ela. O Rafael é formado em Jornalismo, então ele responde mais pela Comunicação. Isso só para citar alguns exemplos, pois a lista se estende.

Não é porque uma pessoa lidera alguma frente que ela toca tudo sozinha, tentamos nos manter o mais horizontal possível e nos ajudando nas tarefas.

Circo Crescer e Viver: Citem alguns trabalhos que fizeram desde que começaram, entre espetáculos, oficinas, mostras, festivais e outras participações.

Circo no Ato (Mário Flávio): Em dois anos de existência, o Circo no Ato construiu um repertório composto por dois espetáculos e um cabaré de variedades. Um dia de João, que já realizou mais de 100 apresentações, Febril, que é uma coprodução com o Crescer e Viver e o Cabaré Circo no Ato, que se mantém como um local de pesquisa continuada. Com esses trabalhos realizou uma extensa circulação no estado do Rio de Janeiro e na capital, tendo visitado em sua maioria, cidades com pouco acesso à cultura e bairros da capital fora do eixo Centro-Zona Sul. Integrou a programação de festivais como: Festival Internacional de Circo do Rio de Janeiro, Festival Sesc de Circo em São Paulo, FIL – Festival Intercâmbio de Linguagens no Rio de Janeiro, Festival Paulista de Circo, Festival de Circo de Campo Mourão, Paraná, Anjos do Picadeiro, Rio de Janeiro, entre outros. Foi contemplado com o Prêmio Carequinha/Funarte em 2013, para a realização de uma circulação de rua por 10 cidades do estado do Rio de Janeiro. Foi vencedor da Mostra Competitiva de Circo do FIl em 2014.

Circo Crescer e Viver: Falem um pouco sobre Febril, o processo e a culminância com o espetáculo?

Circo no Ato (Cássia Cristina): Febril é um espetáculo livremente inspirado na obra do escritor Gabriel García Márquez, principalmente em Cem Anos de Solidão.

Foi um processo intenso de grande aprendizagem e muito enriquecedor para nossa formação artística. Nosso primeiro espetáculo profissional aonde tínhamos uma experiente equipe de criação trabalhando com a gente.

O espetáculo nasceu em uma brilhante estreia e conquistou o público de forma surpreendente, tivemos a casa cheia durante toda a temporada no Crescer e Viver e a última semana com lotação máxima. Tenho lembrança de na última apresentação da temporada ter um número considerável de pessoas assistindo do lado de fora, e aplaudindo, essa imagem foi realmente muito marcante.

Além disso, em 2015, participamos do Festival Internacional Sesc de Circo, em São Paulo, um grande festival que reúne diversos artistas do mundo todo e aonde tivemos uma linda aceitação do público paulista.

Circo Crescer e Viver: Como foram as participações no Circo Volante (projeto do Circo Crescer e Viver) e no Festival de Circo do SESC em SP?

Circo no Ato (Rodrigo Ceribelli): O Circo Volante foi uma experiência maravilhosa… Estávamos no início, e tivemos a oportunidade de circular com Um dia de João pelo interior do estado do Rio de Janeiro.

No geral a lona passava por cidades em que não haviam aparelhos culturais e a população não tinha costume de ir assistir a espetáculos. Lembro de várias vezes perguntarmos para a plateia quantos dali já haviam assistido a um espetáculo de circo e eram sempre pouquíssimos. É uma responsabilidade muito grande ser a primeira referência de uma linguagem para tantas pessoas, ainda mais porque Um dia de João não se enquadra exatamente no formato de um espetáculo de circo clássico que povoa o imaginário destas pessoas.

Recebemos muito retorno sobre nosso trabalho, conhecemos muitas pessoas e lugares (muitos nos seguem até hoje no Facebook rs), ampliamos nossa rede de contatos e consequentemente nossas possibilidades de ações.

No festival do SESC em São Paulo foi completamente diferente, estávamos em uma das maiores cidades da América Latina hospedados em um hotel 5 estrelas junto com várias outras companhias internacionais. Fomos apresentados como um dos novos grupos de circo que estava surgindo no Rio de Janeiro e isso foi muito legal.

O festival ainda ofereceu um vídeo teaser e uma crítica profissional para todos os espetáculos, isso foi bem bacana.

Circo Crescer e Viver: Como surgiu a possibilidade de ir fazer Residência em Barcelona? Quem de vocês foi?

Circo no Ato (Rafael Garrido): Bem no início de 2015 descobrimos um edital promovido pelo Iberescena que iria selecionar uma companhia da América Latina para realizar uma residência de criação e capacitação técnica na Central del Circ, em Barcelona, por um período de seis semanas. Tínhamos acabado de terminar a nossa formação profissional no Crescer e Viver (Programa de Formação do Artista de Circo (PROFAC), e nosso desejo era mesmo buscar uma possibilidade de capacitação para complementar a nossa formação. Dessa maneira, o edital caiu como uma luva no momento certo.

Para a participação na residência, o grupo precisava enviar um projeto de criação para ser desenvolvido. Após algumas reuniões, optamos por enviar o projeto Sincronicidade, uma proposta de criação de espetáculo que havíamos elaborado para inscrição em um edital municipal, que não havia sido selecionada e estava guardada para outras possibilidades. Quando lemos sobre o edital da Residência achamos que esse projeto tinha tudo a ver com a proposta e então nos inscrevemos com ele. O segundo passo foi reunir todo o grupo, somos 12 no total, para entender quem tinha disponibilidade para realizar a viagem e interesse em participar do projeto. Nos inscrevemos e realizamos a residência em sete pessoas: Carol Costa, Cássia Cristina, Luis Martins, Mário Flávio, Natássia Vello, Rafael Garrido e Rodrigo Ceribelli.

Circo Crescer e Viver: Como foi a experiência da residência em Barcelona e de que maneira influirá na carreira de vocês?

Circo no Ato (Luis Martins): A experiência em Barcelona foi muito rica, lá nós tivemos contato com muitas técnicas e artistas dos quais não tínhamos conhecimento, com esses contatos (alguns que se tornaram muito próximos) aprendemos e evoluímos muito na parte técnica e criativa.

Tudo o que vivemos nesses meses intensos, além de nos fortalecer muito tecnicamente, nos possibilitou entender um pouco mais sobre os processos de criação que se desenvolvem por lá, causando muita reflexão sobre os nossos próprios processos. Isso que nos levou a começar a entender quais caminhos nos interessam e dar início ao desenvolvimento de uma metodologia de criação própria.

Além disso pudemos ter uma visão muito mais ampla sobre a cena circense no exterior, através dela também pudemos compreender melhor a cena brasileira.

Circo Crescer e Viver:  Como vocês estão linkando a residência de Barcelona com esta que estão fazendo aqui no Crescer e Viver?

(Circo no Ato – Rafael Garrido): Quando fomos selecionados para a Residência em Barcelona, ainda no começo de 2015, decidimos inscrever Sincronicidade, nosso projeto de criação, no Viva a Arte, Fomento Direto da Prefeitura do Rio de Janeiro. Sabíamos que o objetivo da residência era o desenvolvimento de um projeto de criação e queríamos garantir os recursos necessários para dar continuidade a este processo após o término da mesma, objetivando a montagem do novo espetáculo de repertório da companhia. O resultado do edital saiu antes de viajarmos, então sabíamos que havíamos sido contemplados ainda antes de ir, o que nos permitiu planejar este processo de criação em três etapas.

A primeira etapa foi realizada no mês anterior à viajem, onde realizamos algumas vivências com os profissionais que trabalhariam conosco na ficha técnica do espetáculo, e iniciamos uma rotina de treinamento e ensaio para entender as potencialidades desse grupo de sete. A segunda etapa, a residência em si e todas as outras experiências que ela possibilitou, acabou durando três meses, mais do que tinha sido previsto, e foi super importante porque nos possibilitou um aprimoramento técnico intenso e também permitiu dar início à criação de material para o espetáculo. Mais que isso, a residência nos possibilitou conhecer e trabalhar com profissionais de circo que trouxeram muitas reflexões sobre o nosso trabalho, e vivenciamos e aprendemos muitas metodologias de criação diferentes para a linguagem. Terminamos essa etapa com um núcleo central de onde partiríamos para criar o espetáculo, e muitos caminhos de pesquisa ainda abertos apontados.

Para a terceira etapa, já de volta ao Brasil, a Residência de Modelagem de Espetáculos do Crescer e Viver foi essencial, nos permitiu dar continuidade ao trabalho de criação já em janeiro, sem muito tempo de interrupção, garantindo espaço para ensaio e a estrutura necessária para o desenvolvimento do trabalho. Hoje, já na metade do processo de residência, o espetáculo começa a ganhar corpo e mostrar a que veio. Muito em breve ele se apresentará como resultado deste longo processo composto de diferentes etapas, com objetivos diversos, mas totalmente complementares.

Circo Crescer e Viver:  Sobre a Residência de Modelagem de Espetáculo do Circo CRESCER E VIVER como está sendo essa experiência e quais as expectativas de vocês?

Circo Crescer e Viver – (Natássia Vello): Voltar ao Crescer e Viver depois de formados, é como a sensação de voltar à casa dos pais depois de ter saído, tudo é igual e diferente ao mesmo tempo. Estamos vivendo mais uma etapa da nossa história no Crescer e Viver, agora como artistas residentes, tudo isso é uma grande mudança de paradigma. Ter suporte, para que possamos treinar, pesquisar e criar com autonomia é com certeza um dos nossos maiores desejos, e a residência tem nos proporcionado exatamente isso. Tem sido sem dúvida nenhuma uma experiência incrível. Sem contar que temos muito carinho pelo espetáculo que estamos criando, toda a equipe de criação é muito sensível e talentosa, estamos muito bem amparados. A nossa expectativa para a criação é que continuemos caminhando como agora, com passos firmes, calmos e desbravadores, descobrindo e construindo caminhos. E para depois do espetáculo pronto esperamos fazê-lo muito, queremos que as pessoas assistam, queremos refletir junto a elas sobre o que estamos fazendo. Queremos iniciar mais uma etapa de descoberta e construção, só que dessa vez a partir de uma troca mais ampla, entre o espetáculo e o público.

Circo Crescer e Viver: Sabemos que o espetáculo ainda é uma surpresa para o público, mas o que ele poderá esperar dessa criação dentro da Residência? Que técnicas circenses estão sendo mais exploradas?

Circo no Ato – (Rafael Garrido): O espetáculo parte de uma investigação cênica com a linguagem do circo utilizando como principal técnica a portagem, acrobacia de grupo. Esta técnica sempre foi um fator unificador no grupo, apesar da maioria dos integrantes terem domínio também sobre outras técnicas circenses, como o malabares, a acrobacia aérea, a contorção, o equilíbrio e a palhaçaria. A portagem sempre foi a técnica compartilhada por todos, esteve muito presente nos nossos dois primeiros espetáculos, e durante a nossa trajetória fomos observando a força que esta técnica traz por ser absolutamente coletiva e potencializar o fato de sermos muitos. Com o tempo a portagem foi se tornando a nossa marca, basta ver uma galera se empilhando para saber que é o Circo no Ato. O projeto de criação começa então com o desejo de mergulhar nesta técnica e entender as potencialidades cênicas que ela carrega.

É a primeira criação que realizamos fora da escola de maneira mais independente, por isso temos refletido muito sobre ela, o trabalho reflete o momento que estamos vivendo enquanto grupo, após cerca de três anos de convívio é o momento em que tentamos entender nossas escolhas estéticas e nosso posicionamento político em relação à cena e à cidade. O espetáculo não trará as respostas para estes questionamentos, mas com certeza será o resultado desse processo de reflexão.

A proposta dramatúrgica utiliza a teoria da Sincronicidade de C. G. Jung, que defende a existência de coincidências significativas, que não estão relacionadas a uma lógica de causa e efeito, para falar de cidade e da vida em sociedade. O objetivo é relativizar nossas noções de sociedade, coletividade, território e classes sociais, questionar a cultura do medo e problematizar nosso entendimento de cidade enquanto um território dividido entre gentilezas e extermínios.

O espetáculo ainda está em processo de criação, mas já é possível afirmar que ele será bem diferente dos nossos trabalhos anteriores. Ele será, também, bem diferente do que se espera de um espetáculo de circo. A linguagem que estamos construindo aproxima o circo da performance e da dança, seguindo um caminho de investigação sobre as diversas possibilidades de comunicação que o circo oferece.

Circo no Ato ensaiando em Miguel Pereira. Foto: Divulgação

Circo no Ato ensaiando em Miguel Pereira. Foto: Divulgação

 

Circo Crescer e Viver: Com relação à direção, algumas são feitas pela Natássia Vello, outras por diretores externos. Como o grupo decide sobre isso e quais a diferenças nos processos? Que outros profissionais de fora serão envolvidos?

Circo no Ato – (Mário Flávio): Nosso projeto atual se constituiu em várias etapas diferente e somente o elenco passou por todas elas. Pensando nisso optamos por uma direção compartilhada entre todo o elenco e mais três diretores escolhidos por nós, sendo eles Gustavo Ciríaco, Roberto Magro e Maíra Maneschy.

Porém nossa história começou no primeiro ano do Programa de Formação Artística do Crescer e Viver, onde tínhamos que criar um espetáculo, que foi dirigido por Natássia Vello, que se formou em direção teatral na UFRJ, hoje integrante da companhia. O espetáculo se chama Um Dia de João e nos rendeu mais de 100 apresentações e o início de nossa companhia.

Nosso segundo espetáculo, que é uma coprodução com o Circo Crescer e Viver, se chama ” FEBRIL”, dirigido pó Luiz Igreja, escolhido pela equipe do Crescer e Viver por ser o espetáculo de conclusão de curso.

Febril com alguns integrantes do Circo no Ato quando estavam se formando no PROFAC. Foto: Naldinho Lourenço / Observatório de Favelas.

Febril com alguns integrantes do Circo no Ato quando estavam se formando no PROFAC. Foto: Naldinho Lourenço / Observatório de Favelas.

 

Circo Crescer e Viver:  Como está sendo o processo de construção e ensaios?

(Circo no Ato: Cássia Cristina): Este é o primeiro projeto em que estamos apostando em uma criação coletiva, aonde todo o elenco envolvido assume a direção.

A ideia dessa nova criação é fugir dos lugares comuns em que o circo, em geral, é abordado. O

objetivo é criar um trabalho autentico e totalmente autoral no que diz respeito a técnica circense. Demos início a nossa criação através de dinâmicas e jogos de investigação com a portagem, acrobacia de grupo, que é a principal linguagem circense que escolhemos investigar, rompendo com as linhas retas e perfeitas que a técnica requer, invertendo as posições naturais dos movimentos dinâmicos e sempre buscando formas diferentes da habitual, rígida e reta.

Nossos ensaios partem desse vasto material que levantamos na tentativa de esmiuçar e compreender melhor como tudo isso se traduzirá para a cena.

Febril com alguns integrantes do Circo no Ato quando estavam se formando no PROFAC. Foto: Marcia Farias / Observatório de Favelas.

Febril com alguns integrantes do Circo no Ato quando estavam se formando no PROFAC. Foto: Marcia Farias / Observatório de Favelas.

 

Circo Crescer e Viver: Que mensagem vocês deixariam para os próximos residentes ou aspirantes à residentes?

Circo no Ato – (Carol Costa): Acredito que o maior conselho que podemos deixar para os residentes é o de estar sempre realizando. Escolhemos o nome Circo no Ato, porque surgimos como grupo fazendo e fomos entendendo os nossos lugares no decorrer dessa trajetória. Quando não tínhamos espaço para nos apresentar fomos para a rua, e esse espaço, que acabou se transformando em uma paixão nossa, se mostrou um grande local de visibilidade e abriu diversas possibilidades. Estando na rua conquistamos alguns eventos, que nos possibilitaram estar em outros palcos da cidade, que nos abriram as portas para festivais, que fortaleceram nosso nome para ganhar nosso primeiro edital, residência artística e nessa caminhada estamos. Trabalhar com circo na nossa cidade é muito difícil, existem diversas fragilidades a serem superadas, mas é exatamente nesse local que também está o encanto, pois essa linguagem por ser tão potente, nos dá espaço para mostrar

ao público coisas que eles nunca imaginaram ver. É por acreditar nisso e nessa linguagem que nossa mensagem para os residentes é que sigamos trabalhando, o circo é encantador e seu poder no imaginário popular é insuperável.

Confira os outros Polos Cariocas de Circo:

Polo Carioca de Circo – Circo Up Leon

Polo Carioca de Circo – Polo Benjamin – Teatro de Anônimo

Polo Carioca de Circo – Grupo Off-Sina

O Polo Carioca de Circo – Circo Crescer e Viver tem o patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Cultura, parceria da Archaos e Rio Criativo. Realização: Circo Crescer e Viver. 

O Circo CRESCER E VIVER tem Patrocínio do Governo do Rio de Janeiro, da Secretaria de Estado de Cultura, da Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro, da Petrobras, da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Cultura, do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), da Hope Serviços e apoio da ABC Trust, da Rise Up & Care e da Vertical Rigging Solutions.